carta para mim daqui a 40 anos



Hoje é uma noite fria de Dezembro... há quarenta anos atrás.


Dezembro não deixa de ser Dezembro, seja lá isso em que idade for. Andaste no mar hoje, com um fato de 5/3 milimetros mais elástico que o teu primeiro que era 3/2.
Chama-se a isto evolução.
Provavelmente se hoje, quando estiveres a ler isto, ainda surfares, o fato ainda há-de ser mais xpto... tipo, água aquecida dentro de micro-fibras?!.... brutal!



praia da barra.. sometime in december two thousand & eleven




Tinhas também umas botas que compraste na Ericeira. Compraste, da segunda vez que foste à loja, porque quando lá foste à procura delas, não encontraste o teu número nas antigas, já fora de moda e, a comprares tinham de ser umas daquela época, por isso mais caras... só porque a fita era azul e mais não sei o quê.

Não as trouxeste. Foste para a água a seguir, cortaste os pés nas pedras e assim que os puseste fora de água, voltaste ao raio da loja porque de um momento para o outro... já não te pareceram tão caras... e o parvásio do teu surfrider Bro a rir-se de ti e do teu corte porque para ele havia das mais baratas.

Espero bem que tanto um como outro estejam bem na vida e que continuem a surfar. Pronto... acredito que não nalguma 6'4" ou 6'1" como há quarenta anos... mas para aí numa 8'9"?!... não?!... Maior?!... pronto... desde que andem na água tudo bem.

Espero bem que os vossos filhos, sobrinhos e por esta altura talvez já netos, também por lá andem... e se não, que se lixe... se vos fizerem lanche ou jantar para voces andarem descansadinhos, tudo bem!

Espero bem que já tenhas surfado nas Mentas, no Tahiti e no Hawaii. Se não.... pá... és um falhado.

Espero bem que tenhas conseguido fazer lá a tal cena de surf para a paz, ou surf para o desenvolvimento ou orbis surf project.... ou lá que nome lhe deram.

Espero bem que não tenhas deixado de ter ideias idiotas e de ter sempre a coragem ou a estupidez (acho que são coisas semelhantes) para deslindares sempre uma maneira de as executar e levar a efeito... a efeitos...


Espero que a vida nunca te faça dizer nada em que não acredites ou em que não vejas caminho. Se isso acontecer, não vais ter hipótese, não vais convencer ninguém, nem a ti.

Espero bem que não olhes para mim e me digas que foste muito feliz, porque se ainda respiras, é porque ainda o tens de ser e ainda tens que fazer no mundo.

Espero bem que tenhas cumprido a maralha toda de sonhos, que tenhas perdido muito tempo no mar e assim não tenhas tido muitas gripes.

Espero bem que tenhas encontrado aquela a quem ias acompanhar e que te ia acompanhar como prancha para toda a onda e que a tenhas feito, aliás, ainda faças... muito feliz. Espero que lhe cantes muito a vida, a vossa... com ou sem guitarra à Paul McCartney.

Espero bem que as tuas pranchas ainda sejam amarelas, ainda que os barcos de esferovite das escolas de surf há quarenta anos atrás (chamavam-se pranchas de aprendizagem) também eram amarelas, ou azuis... se ainda o forem e gozarem contigo porque "as pranchas amarelas são as das escolas e fazem lembrar aquela malta que anda a aprender"... lembra-te que sim... que andas toda a tua vida a aprender, portanto, mesmo aí no alto da tua velhice de histórias para contar, com rugas e cicatrizes a provar cada uma delas... ainda deves andar a aprender. Se achares que já não, pára um bocadinho e pousa a bengala. Reflecte...


Falando em bengalas, espero bem que sejas saudável, que te alimentes bem, que não te tenhas deixado crescer a barriga porque isso prejudica o surf. Embora não possas fazer muito quanto a isso, espero que não tenhas ficado careca e que os cabelos brancos te caiam com alguma pinta de charme. Se repetires a mesma coisa não sei quantas vezes como já te acontecia há 40 anos, espero que tenham paciência infinita contigo, como tu tinhas com quase toda a gente também. Espero que não tenhas perdido isso.


Há quarenta anos atrás, era Dezembro. Chegaste quase de noite ao mar porque antes andaste na cave de casa, onde o piso é liso, a ensinar os teus sobrinhos a surfar em seco... tinhas ideias de os levar para o mar e iniciar no surf a sério no Verão seguinte... principalmente se o mais novo já tivesse deixado aquela merdice (literalmente) das fraldas.

Espero que cada um deles tenha a sua prancha para não andares naquela treta de uma voltinha a cada um, de cada vez... Espero que eles se divirtam contigo o quanto se divertiam comigo e eu com eles. Sempre são goofies ou regulares? E os teus putos? Méquié?!

Voltando ao frio de hoje... a água estava fria, choveu um bocadinho enquanto lá andavas. O efeito na água foi bonito. As ondas estavam duras e houve ali alturas em que estavas esbaforido de remar. Apanhaste três, direitas. Fizeste uma brutal... conseguiste a proeza de dropar, voltar ao pico e virar para baixo de novo. Ficaste tão parvo com aquilo que a onda fechou a seguir, bem de lado e malhaste feito parvo à grande porque nem deste por ela!!....

Espero que entretanto esse tipo de manobras tenham deixado de ser proezas e tenham passado a ser mais comuns... mas nem por isso tenham deixado de ser especiais.

Espero que não te tenhas esquecido disso... momentos especiais não têem nada que ver com o facto de serem raros... podem muito bem ser comuns, frequentes... podem muito bem nem ter nada de especial que se veja. São especiais porque os protagonistas os acham especiais, mesmo que sejam simplices.

Uma coisa que deverá ser muito comum é acordares todos os dias e veres uma cara mal abres os olhos. Não estou a falar da tua, mas É a tua... penso que isso deverá ser bem especial... sempre.

Voltando ao frio de hoje... saíste da água de noite. Tu e outro rapaz que nunca tinhas visto, provavelmente não viste mais e se viste não associaste. Foram companheiros ali naquele mar duro, frio. Isso é muito importante na vida.

Voltando ao frio de hoje... vinhas já cá fora a caminhar, de prancha debaixo do braço e as pessoas domingueiras que andavam a passear muito agasalhadas olhavam para ti de alto abaixo e de certeza que  pensavam que eras um otário.... ou então que eras um bocado parvo. Não estariam completamente erradas, mas também não estavam completamente certas.

De todas as maneiras... trazias um brilho nos olhos.

Espero bem que nunca tenhas ficado ovelha, que tenhas voltado ao frio, ao calor, ao que fosse desde que tenha sido para fazeres aquilo em que acreditavas, aquilo com que te divertias. Espero que nunca tenhas abdicado de pensar.

Voltando ao frio de hoje... espero que vivas ainda a tua vida bem. Que faças o que gostas e o faças muitas vezes... como hoje... e não estou só a falar de surf. Estou a falar de estender a mão a alguém, seja isso um pobre que fala contigo a que lhe respondes que ele vale tanto quanto tu, nada mais e nada menos (mesmo que a caridadezinha lhe diga o contrário), seja outra pessoa qualquer.. Seja isso uma carta que escreves com carinho a alguém.. Seja isso uma brincadeira com duas criançolas, ou um almoço rico em família.

Não sei o que vem a seguir, o que vai acontecer durante o tempo que está entre ti e mim... Se tenho medo?! Tenho... aquele medo que se sente quando se vê uma onda grande à frente, que impõe respeito solene, mas que entusiasma à grande... e não lhe viramos costas (até porque não podemos)..


Não sei o que vai ser até eu chegar aí onde tu estás agora, mas sei que vai ser de certeza alguma coisa muito boa... porque qualquer praia é óptima, seja no aconchego do quentinho do Inverno, ou na frescura do Verão....

Não há outro modo de viver a vida que não no limite do que somos... é assim que nos sentimos vivos... seja em ondas certinhas e pequenas, seja em mares duros e encrespados...

Voltando ao frio de hoje... o dia foi em grande.

Do you remember?...







segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

 
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