2012 promete!



sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

uma oração

Christian Redongo, Tahiti | photo: Zak Noyle


Paizão,

Inventámos esta coisa chamada tempo para nos orientarmos, medirmos as coisas, os objectos, as pessoas... Por isso está a chegar ao fim um ano bonito. Por isso vai começar um ano que confesso, estou ansioso por ele e, com expectativa! 

Soa bem dois-mil-e-doze.... tem boa sonoridade...

Desculpa o Amor desperdiçado neste ano. É a única coisa que andamos aqui a fazer e às vezes, perdemo-nos disso para coisas ilusórias que nos descentram do principal que está além dessas medidas chamadas tempo e espaço.

Obrigado pelas pessoas, obrigado pelas ondas, obrigado pelos momentos duros, pelos momentos doces, pelas oportunidades, pelos defeitos, pelas qualidades, pelo trabalho, pelo passado, pelo futuro, mas sobretudo pelo presente! Isso tudo que me deste faz o ser em construção que aqui Tens.


Obrigado por esta sensação de fim de ciclo, misturada com início de ciclo. É brutal a criatividade que se tem quando estamos na fase do "não faço ideia do que fazer a seguir e do que vai ser a vida". E isso, as ideias, os sonhos, as pessoas manifestam-se-nos aí melhor do que nunca!


Etapas cumpridas, outras começadas, muitos lugares novos e viagens de sonho, de sonhos... sem nunca me esquecer de onde vim e quem sou.

Que 2012 continue a ser isso: ideias, sonhos... Pessoas, muita família, muitos amigos, muito riso e muito Amor...

...que a vida se cumpra com paixão!... em todas as 'ondas'.






Meu Amor...

... Meu Amor da minha Vida...
assim que te vi... fiquei estarrecido!... eras a loira mais deslumbrante que eu algum dia tinha visto.

Soube logo naquele momento que era ao teu lado que queria ver o sol a baixar e a noite a cair. Seria ao teu lado que queria correr sobre a manhã, a enfrentarmos juntos o que as ondas da vida nos trouxerem. Seria ao teu lado que quero deslizar, por esse mar azul e profundo fora. Seria ao teu lado que queria adormecer todas as noites, ao teu lado, onde tudo faz sentido e o milagre acontece.

Sabia que juntos iríamos passar muitos obstáculos, desafios, a vida vai ser o constante milagre de a cada onda gigante que achamos que não somos capazes, corrermos o último instante, na última remada para a vertigem do drop... chegaremos sempre, tu e eu ao poço sagrado do silêncio, o túnel da água, cintilante e translúcida.


Soube logo que iria passar muito tempo da minha vida deitado em cima de ti, sentado também... e mesmo de pé em cima de ti.


Sei que o nosso primeiro encontro no Mar foi uma porcaria. Não correu nada bem a nossa sintonia. Mas no seguinte já correu melhor e sei que é nesse caminho, no treino, no diálogo de amor entre nós os dois que cresceremos e juntos planaremos sobre as águas como Um só!

Soube ali mesmo, quando te vi a primeira vez naquele armazém ao pé da Ria, e depois quando fomos para o mar... que te iria amar toda a minha vida... e cada vez que ela e as suas ondas nos fizerem voar em algum aéreo, seremos felizes, mas cada vez que ela nos empurrar para os rochedos, será entre ti e eles o sítio onde eu estarei...

Se alguma coisa te acontecer, acredita... todo o meu Amor em forma de fibra de vidro e resina há-de cuidar de ti com carinho, sarar as tuas feridas e juntos.... iremos ali ao hospital das pranchas que é a garagem do 'Colas' e ficarás como nova!

Juntos faremos o milagre... de caminhar sobre as águas. Já não serei eu ou tu, seremos nós, como um só... onde só o mar e o céu marcarão o horizonte de uma linha como nós, que nunca se separa...

És a minha loira preferida!.... minha querida... pranchinha nova!
























quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

O mar onde eu nasci










in:













Tu és um Homem de viagem. E aqui vejo água, vejo o mar – continuou o velho - A terra está carregada das leis, mandos e desmandos. O Mar não tem governador.  Quem constrói a casa, não é quem a ergueu, mas quem nela mora. (...) Nós os da Costa somos habitantes não de um continente, mas de um oceano.
Mia Couto

Todos temos uma terra onde nascemos. Nem todos temos outro sítio, mas aposto que todos temos uma onda memorável, uma vertigem, a primeira, do primeiro drop que fizemos e caímos a seguir porque a emoção não nos deixou ter concentração para fazer o resto como devíamos fazer. Vemo-nos a descer, a ficar sem fôlego e sem chão por baixo e, de repente seguimos, para um lado ou outro, direita ou esquerda, ou mais provavelmente em frente porque quando se aprende e não se tem medo, mandamo-nos para a frente. Ou ainda mais provavelmente como disse atrás, para baixo das ondas, num mergulho em que andamos às voltas debaixo de água, meio aflitos, mas de sorriso largo porque acabámos de viver ali qualquer coisa de magia. Acabámos de nascer – no que ao surf diz respeito...
O dia em que isso acontece, não se esquece mais.



O Mar onde eu nasci foi aqui, em Aveiro. Tinha doze ou treze anos e um amigo. Tinha mais, mas este é que me pôs areia na cabeça e água salgada nas veias. Ficávamos horas na praia a ver os surfistas, a tentar perceber como é que aquela classe de gente fazia, se punham de pé e caminhavam pela água fora, como se fossem levados pela mão de Deus – como a Dona Marta, da Rocinha, a favela do Rio de Janeiro, chamava às ondas por onde o filho pequeno andava lá em baixo frente à Barra do Tijuca e assim crescia longe dos problemas da pobreza. Mas isso é outra história, é outro ritmo...

De volta a Aveiro, conseguimos juntar seis contos cada um e comprámos uma prancha em segunda mão por doze contos, ali no Pedro do Pote de Mel, na Barra, não a do Tijuca, mas a de cá, de Aveiro.
Não havia cá fatos nesse tempo. Não havia dinheiro para eles. Andávamos em baixo de patrocínios e uns calções e uma t-shirt para disfarçar o frio que a juventude da idade ainda não sentia nesse tempo, tinha de servir. Íamos à vez para o mar, o outro ficava na praia a ver, ou ia a nadar para junto do outro que ia a remar. E era ali, para os lados da Costa Nova do Prado que tentávamos imitar o que víamos os prós fazerem. Íamos para a Costa Nova, não por ter ondas melhores ou piores, mas porque não andava por lá ninguém e havia aquela secreta vergonha que nos vissem a não fazer uma única série em condições. Isso e porque se ela viesse, a onda, nós íamos em frente ou para os lados, para onde quer que calhasse ela nos levar. Corríamos sempre o risco de passar por cima de alguém. Dropinanços que líamos nas revistas que davam sempre pancada a seguir.



Demorou tempo até chegar o dia em que nascemos. E no fundo da minha memória, nem sei se foi na Rosa Maria, o nome da prancha de doze contos que foi baptizada com o nome das nossas mães, em que tentámos dias sem conta perceber a arte de caminhar na água.
Lembro-me da persistência que é preciso. O surf é daquelas formas de vida que nos ensina o valor de não desistir da vida, por muito que ela demora e mostrar resultados. Não vai muito tempo em que conheci um inglês, sôfrego na água, – I’m a beginner – dizia-me ele.. Nunca podes desistir aconteça o que te acontecer – respondia-lhe eu.
Muita água salgada bebida depois, muitas madrugadas e frio depois, chegou o dia estrondoso da vertigem do nascimento de mar. O dia em que se vê tudo de lá de cima, da onda, de pé sobre ela, dentro dela.
Aconteceu naturalmente, sente-se a remada a compensar, a velocidade a acompanhar. Colocamo-nos de pé.
Nessa altura, a do nascimento, já éramos três. Os dois amigos e a namorada de um deles. Esguia e bonita, muito mais leve, para ela tudo era meio natural dentro de água, como se estivesse em casa. Julgo mesmo que podemos chamar assim ao Mar onde nascemos. A nossa casa. Sentimo-nos sempre benvindos quando chegamos a casa, encontramos quem nos ama. O sítio onde moramos, mora em nós. Está sempre pronto para nos receber, um acolhimento caloroso, mesmo que a água esteja gelada, nunca falta o tapete estendido com todas as letras, benvindo...


Hoje, pese embora a dedicação, a evolução técnica não é muita, ao contrário da felicidade que as ondas provocam. De facto é isso talvez o mais importante. Desculpo-me com as direitas omnipresentes nas nossas praias. Para um goofie como eu nunca são o melhor que há, principalmente depois da sorte de surfar esquerdas certinhas e de brincar onda fora.
A miúda, que terá sempre este nome carinhoso mesmo daqui a sessenta anos e muitas rugas em cima, metia impressão como apanhava qualquer onda que viesse, como se passeasse nela, como se tivesse sempre andado por ali. Era regular, via as ondas de frente, foi vencendo os medos. É sempre fácil isso quando se anda de mãos dadas. Isso e o jeito natural faziam com que tudo lhe parecesse fácil, harmonioso, com o sentido que se sente quando tudo está no seu lugar. Venha a tempestade que vier, avançamos!...

O vício de ver as surfadas do pessoal para aprender na altura em que não se sabia nada, continuou, mesmo depois, na altura em que está sentado na prancha, lá fora à espera do set. O mundo atrás da linha das ondas parece outro. Estamos protegidos por aquela barreira, intransponível a tudo o que não queremos que passe quando queremos estar ali, sozinhos com a nossa alma, a gémea ou mesmo só a nossa parte. Parte do surf é isso também – estar por ali sentado - o mundo que se vê é diferente, mais harmonioso, numa ordem lógica e natural, mas que nunca se repete. Não há duas ondas iguais. Olhamos para terra como se não fossemos de lá, e nada mais parece muito importante ou problemático quando se vê daquela perspectiva – sentado na prancha, a subir e a descer, embalados como no berço, como um barco à deriva, mas com a sensação de nos sentirmos seguros e protegidos, nunca perdidos. Sorrir por dentro é inevitável.

É o mar onde nascemos. A magia que é correr a onda, mas também estar lá sentado à espera dela, a ver o sol, a ver os outros, a testemunhar e a viver a alegria pura.
Uma tarde houve em que fiquei à conversa com um surfista para cima de três horas. Era uma tarde rara em que éramos dois na água. Só dois. No intervalo das ondas falávamos de surf, da vida, do país, do frio, das nuvens, de tudo... Foi aí que aprendi que nas pranchas pequenas temos de dar uma remada forte mesmo em cima da onda, um take-off poderoso. Com as pranchas maiores, a remada tem de começar antes. Quando a onda chega já temos de levar alguma velocidade.

Já era noite quando saí da água e percebi que estive ali com o meu melhor amigo daquela tarde e que nem sequer lhe soube o nome ou ele o meu. Estranho isto, de estarmos com alguém, como família se tratasse, e nem sequer lhe sabermos como que lhe chamam. Oxalá ele continue por aí a surfar no mar e na vida à grande. Nunca tive uma aula de surf como hoje há muitas, mas calculo que sejam assim, como aquela tarde de conversa serena à porta de casa. Os milagres do surf. A naturalidade como acontece relação com os outros, com o mar, como se enfrentam os desafios e as quedas, os mergulhos, as litradas de água que se engolem, os enrolanços debaixo de água sem sabermos para onde fica o norte depois das quedas e finalmente, o encantamento depois de uma onda bem rodada. O êxtase e o desafio, tudo junto e em grande força.


Às vezes essa força vem cá para fora de água. Recordo uma tarde de Verão, em Aveiro, no mesmo mar onde nasci. Andava tranquilo e com boa companhia na água que parecia calma. (É possível andarmos mal acompanhados dentro de água?) Ouvi um grito. Com a praia lá longe cheia de gente, não é de estranhar nem é incomum ouví-los. A miúda que andava sempre comigo disse-me que parecia alguém a pedir ajuda. Ficámos alerta, apesar de todo o ruído de longe e vimos assim, ainda mais para trás do que nós, um ponto escuro à tona de água.
Nadámos para lá e mais de perto percebemos um esbracejar aflito. Continuámos a remada, confesso que chateado, porque cansado. E o ponto que vimos, era mesmo um rapaz, dos seus quinze anos que mais parecia ter vinte pelo tamanho.
Não sabia nadar e foi apanhado num agueiro. Num repente viu-se sem pé, longe da praia. Junto dele já, tranquilizámo-lo e trouxemo-lo para cima da prancha. Mais calmos disse-lhe que íamos demorar a chegar à praia, mas que íamos chegar. Já não tinha grande força, nem eu nem ele, mas houve ali sempre uma mão e uma voz ao lado a providenciar toda a força que foi necessária.


Essa coragem que nos dá quem nos ama faz-nos sempre descobrir forças onde já não as temos e seguimos, para lá do que podemos, sempre.
Já perto da praia, o nadador-salvador que devia pensar que eu era um ás arrancou-me da prancha e concluiu o salvamento. Eu esgotado, fui trazido o resto que faltava e já na areia sentei-me com os pulmões junto à boca à procura de ar. Nunca sozinho. Quem me emprestou a coragem continuava ao pé de mim.
Juntou-se a multidão do costume à volta do rapaz e de lá saiu um senhor que veio ter comigo e me deu o abraço mais apertado e forte que alguma vez alguém me deu. Era o pai do filho salvo. Não lhes soube o nome. Disse-me obrigado pela vida e de facto, foi ali junto ao mar onde nasci que percebi que um Pai não tem limite no Amor a um filho. Já sabia disso, já o tinha sentido com o meu Pai. Mas nesse dia quando o vi de novo, o olhar foi diferente, de uma certa cumplicidade e gratidão pela vida dedicada.


Gratidão que eu senti também anos mais tarde por outro desconhecido que se torna família.
Já todos imaginámos o que seria a inóspita desgraça de um dia, longe da areia, nalguma onda mais dura, o shopleash, cabo ou corda que nos segura à prancha, cortar-se.
É uma coisa que acontece por vezes, geralmente aos outros, mas algum dia, remoto, pode acontecer a nós. E o dia remoto veio.
A Prancha é como um barco de apoio, está sempre ali, nos dias de chuva, de sol, nos dias de vento agreste, nos dias calmos, nos flats ou nas ondas duras. Uma prancha é como um Amor perfeito, há sempre uma comunhão sem palavras, uma dependência saudável. Mas como nos Amores perfeitos, o cabo pode partir-se.
O pânico é a pior coisa. Podemos perder-nos e pode a prancha perder-se nos rochedos e partir-se de vez.
Nessas situações limite, o fato boia e qualquer surfista o sabe fazer também, mesmo que pense que não.
Podemos nadar, nadar tranquilamente para terra, meia hora, uma hora. Se cansado. Pára. Aproveita para olhar para o céu e ver a vida que levas. Nada de crol, de bruços, de costas, do que seja. Conta os pirolitos de água salgada que já bebeste. O tempo passa e alguém chega, nem que seja a areia para onde as ondas te levaram.
Se houver alguém na água, dá sempre uma ajuda, somos comunidade.

Depois há que ir buscar a prancha, descansar em silêncio contemplativo e refazer o leash, esse fio da vida, que nos liga como se de almas gémeas a prancha e nós nos tratássemos, fiéis, sempre ali para tudo, o bom, o mau, a saúde e a doença, a riqueza e a pobreza, amando como o outro quer ser amado.
É assim, nesta dupla, que se conseguem momentos de pura magia no respeitoso mar. Mas como nos Amores perfeitos, o cabo pode sempre refazer-se.
Não precisei de nadar. Bastou-me acenar a um desconhecido que andava no mesmo set e ele veio-me buscar, levou-me quase até à praia e ainda me foi buscar a prancha. Não se vê esta bondade todos os dias, pelo menos fora de água. Disse-lhe da minha gratidão. E também o nome dele, não o soube.
Tudo na vida devia ser como o surf. Não há ferida que não sare, não há pé que não volte ao sítio, não há resina que não concerte uma tábua, não há nunca uma última onda!


Um dia vou ter algumas rugas nas mãos, cabelo cor de céu no outono da vida, e os joelhos vão estalar antes de dobrar. Nessa altura, vou ter muitas histórias para contar e uma prancha 8'3'' ou talvez maior ainda, mas sei que há um sítio, aquele onde nasci, que vai lá estar sempre com um tapete estendido com as letras a espuma salgada, a dizer “benvindo” a toda a gente que por aqui vier. Duas coisas, nesse tempo como agora, nunca vão faltar... a magia do surf e uma onda mais para quem vier. Benvindos a Aveiro...

sábado, 24 de dezembro de 2011

horizonte largo



Dois binómios são um travessão que começa bem qualquer ideia ou estória de horizontes mais largos, fazendo-nos chegar, como almas grandes nos fazem, muito mais longe, por caminhos de areia mole ou de perdas duras, montanha acima ou deserto adentro, por ondas de água fria, medonhas, cavadas ou picadas...

Há caminhos que são feitos com a magia dos binómios.

Uma prancha de surf e um Land Rover encerram em si mesmos um grande significado, como se de calçado se tratasse, um que nos dissesse que com eles, podemos ir a todo o lado.

Dizia o Indiana Jones no primeiro filme e em pleno mar... "it's not the age... it's the mileage"

domingo, 11 de dezembro de 2011

carta para mim daqui a 40 anos



Hoje é uma noite fria de Dezembro... há quarenta anos atrás.


Dezembro não deixa de ser Dezembro, seja lá isso em que idade for. Andaste no mar hoje, com um fato de 5/3 milimetros mais elástico que o teu primeiro que era 3/2.
Chama-se a isto evolução.
Provavelmente se hoje, quando estiveres a ler isto, ainda surfares, o fato ainda há-de ser mais xpto... tipo, água aquecida dentro de micro-fibras?!.... brutal!



praia da barra.. sometime in december two thousand & eleven




Tinhas também umas botas que compraste na Ericeira. Compraste, da segunda vez que foste à loja, porque quando lá foste à procura delas, não encontraste o teu número nas antigas, já fora de moda e, a comprares tinham de ser umas daquela época, por isso mais caras... só porque a fita era azul e mais não sei o quê.

Não as trouxeste. Foste para a água a seguir, cortaste os pés nas pedras e assim que os puseste fora de água, voltaste ao raio da loja porque de um momento para o outro... já não te pareceram tão caras... e o parvásio do teu surfrider Bro a rir-se de ti e do teu corte porque para ele havia das mais baratas.

Espero bem que tanto um como outro estejam bem na vida e que continuem a surfar. Pronto... acredito que não nalguma 6'4" ou 6'1" como há quarenta anos... mas para aí numa 8'9"?!... não?!... Maior?!... pronto... desde que andem na água tudo bem.

Espero bem que os vossos filhos, sobrinhos e por esta altura talvez já netos, também por lá andem... e se não, que se lixe... se vos fizerem lanche ou jantar para voces andarem descansadinhos, tudo bem!

Espero bem que já tenhas surfado nas Mentas, no Tahiti e no Hawaii. Se não.... pá... és um falhado.

Espero bem que tenhas conseguido fazer lá a tal cena de surf para a paz, ou surf para o desenvolvimento ou orbis surf project.... ou lá que nome lhe deram.

Espero bem que não tenhas deixado de ter ideias idiotas e de ter sempre a coragem ou a estupidez (acho que são coisas semelhantes) para deslindares sempre uma maneira de as executar e levar a efeito... a efeitos...


Espero que a vida nunca te faça dizer nada em que não acredites ou em que não vejas caminho. Se isso acontecer, não vais ter hipótese, não vais convencer ninguém, nem a ti.

Espero bem que não olhes para mim e me digas que foste muito feliz, porque se ainda respiras, é porque ainda o tens de ser e ainda tens que fazer no mundo.

Espero bem que tenhas cumprido a maralha toda de sonhos, que tenhas perdido muito tempo no mar e assim não tenhas tido muitas gripes.

Espero bem que tenhas encontrado aquela a quem ias acompanhar e que te ia acompanhar como prancha para toda a onda e que a tenhas feito, aliás, ainda faças... muito feliz. Espero que lhe cantes muito a vida, a vossa... com ou sem guitarra à Paul McCartney.

Espero bem que as tuas pranchas ainda sejam amarelas, ainda que os barcos de esferovite das escolas de surf há quarenta anos atrás (chamavam-se pranchas de aprendizagem) também eram amarelas, ou azuis... se ainda o forem e gozarem contigo porque "as pranchas amarelas são as das escolas e fazem lembrar aquela malta que anda a aprender"... lembra-te que sim... que andas toda a tua vida a aprender, portanto, mesmo aí no alto da tua velhice de histórias para contar, com rugas e cicatrizes a provar cada uma delas... ainda deves andar a aprender. Se achares que já não, pára um bocadinho e pousa a bengala. Reflecte...


Falando em bengalas, espero bem que sejas saudável, que te alimentes bem, que não te tenhas deixado crescer a barriga porque isso prejudica o surf. Embora não possas fazer muito quanto a isso, espero que não tenhas ficado careca e que os cabelos brancos te caiam com alguma pinta de charme. Se repetires a mesma coisa não sei quantas vezes como já te acontecia há 40 anos, espero que tenham paciência infinita contigo, como tu tinhas com quase toda a gente também. Espero que não tenhas perdido isso.


Há quarenta anos atrás, era Dezembro. Chegaste quase de noite ao mar porque antes andaste na cave de casa, onde o piso é liso, a ensinar os teus sobrinhos a surfar em seco... tinhas ideias de os levar para o mar e iniciar no surf a sério no Verão seguinte... principalmente se o mais novo já tivesse deixado aquela merdice (literalmente) das fraldas.

Espero que cada um deles tenha a sua prancha para não andares naquela treta de uma voltinha a cada um, de cada vez... Espero que eles se divirtam contigo o quanto se divertiam comigo e eu com eles. Sempre são goofies ou regulares? E os teus putos? Méquié?!

Voltando ao frio de hoje... a água estava fria, choveu um bocadinho enquanto lá andavas. O efeito na água foi bonito. As ondas estavam duras e houve ali alturas em que estavas esbaforido de remar. Apanhaste três, direitas. Fizeste uma brutal... conseguiste a proeza de dropar, voltar ao pico e virar para baixo de novo. Ficaste tão parvo com aquilo que a onda fechou a seguir, bem de lado e malhaste feito parvo à grande porque nem deste por ela!!....

Espero que entretanto esse tipo de manobras tenham deixado de ser proezas e tenham passado a ser mais comuns... mas nem por isso tenham deixado de ser especiais.

Espero que não te tenhas esquecido disso... momentos especiais não têem nada que ver com o facto de serem raros... podem muito bem ser comuns, frequentes... podem muito bem nem ter nada de especial que se veja. São especiais porque os protagonistas os acham especiais, mesmo que sejam simplices.

Uma coisa que deverá ser muito comum é acordares todos os dias e veres uma cara mal abres os olhos. Não estou a falar da tua, mas É a tua... penso que isso deverá ser bem especial... sempre.

Voltando ao frio de hoje... saíste da água de noite. Tu e outro rapaz que nunca tinhas visto, provavelmente não viste mais e se viste não associaste. Foram companheiros ali naquele mar duro, frio. Isso é muito importante na vida.

Voltando ao frio de hoje... vinhas já cá fora a caminhar, de prancha debaixo do braço e as pessoas domingueiras que andavam a passear muito agasalhadas olhavam para ti de alto abaixo e de certeza que  pensavam que eras um otário.... ou então que eras um bocado parvo. Não estariam completamente erradas, mas também não estavam completamente certas.

De todas as maneiras... trazias um brilho nos olhos.

Espero bem que nunca tenhas ficado ovelha, que tenhas voltado ao frio, ao calor, ao que fosse desde que tenha sido para fazeres aquilo em que acreditavas, aquilo com que te divertias. Espero que nunca tenhas abdicado de pensar.

Voltando ao frio de hoje... espero que vivas ainda a tua vida bem. Que faças o que gostas e o faças muitas vezes... como hoje... e não estou só a falar de surf. Estou a falar de estender a mão a alguém, seja isso um pobre que fala contigo a que lhe respondes que ele vale tanto quanto tu, nada mais e nada menos (mesmo que a caridadezinha lhe diga o contrário), seja outra pessoa qualquer.. Seja isso uma carta que escreves com carinho a alguém.. Seja isso uma brincadeira com duas criançolas, ou um almoço rico em família.

Não sei o que vem a seguir, o que vai acontecer durante o tempo que está entre ti e mim... Se tenho medo?! Tenho... aquele medo que se sente quando se vê uma onda grande à frente, que impõe respeito solene, mas que entusiasma à grande... e não lhe viramos costas (até porque não podemos)..


Não sei o que vai ser até eu chegar aí onde tu estás agora, mas sei que vai ser de certeza alguma coisa muito boa... porque qualquer praia é óptima, seja no aconchego do quentinho do Inverno, ou na frescura do Verão....

Não há outro modo de viver a vida que não no limite do que somos... é assim que nos sentimos vivos... seja em ondas certinhas e pequenas, seja em mares duros e encrespados...

Voltando ao frio de hoje... o dia foi em grande.

Do you remember?...







segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Promised Land




'If everybody were surfers... we would have peace'



domingo, 4 de dezembro de 2011

This is Nature, and we are part of it


Ke11y Slater... e o meu sobrinho de dois anos







Não ligo muito, confesso, aos campeonatos. Foi até recentemente que fiquei a perceber como funcionam os hits, o tempo deles, como se dá a pontuação, os critérios para isso.. essas coisas.

Diz-me muito o free surf, pouco a competição. Diz-me muito a mística, a história do surf, o estilo de vida que ele imprime, a comparação de parábola que o surf é da vida, a comunhão que se sente, que se vive, o frio, o calor, o êxtase, a alegria de criança que se sente quando acontece o tal milagre de caminhar sobre as águas... pronto.. deslizar.

Lembro-me do Kelly Slater quando começou a dar cartas. Era rapaz novo, participou numa série americana que já nem me lembro o nome, passou por várias gerações de surf e várias formas de pontuar o surf... passou pelos tubos, pelos aéreos brutais, pelas outras técnicas, sejam elas quais forem... passou pela geração de força dos australianos, dos brasileiros, e de outros, de outros sítios...

Não impôs o seu estilo aos adversários, não os venceu submetendo-os e trazendo-os ao seu campo, ao seu terreno.
Não... venceu os do tempo dos aéreos, com aéreos, venceu os do tempo dos tubos, com tubos, e por aí fora... Venceu os adversários a fazer aquilo em que os seus adversários eram mais fortes...

Também isto é uma parábola da vida...


Mas o que mais admiro nele não é o surf brutal, não é a idade, a postura, não é claro o que a população [feminina] admira nele...

é mesmo o riso.

Cada vez que vejo o tipo a surfar e a câmara consegue aproximar o rosto,  nalgum close up, o senhor está-se a rir, a sorrir... está feliz.

Vi isso no meu sobrinho de dois anos e dois meses, nas primeiras sessões dele de "skurf"... aquelas pranchas de skate compridas, que parecem pranchas de surf pequeninas e com rodas... 
Comecei a ensinar o rapazolas a andar naquilo. Primeiro, sentado, depois devagar já de pé, depois pernas afastadas, depois joelhos fletidos, depois olhar em frente, braços em equilíbro... 


Depois empurrar a prancha, a segurá-lo. A seguir já não a empurrar a prancha, mas a segurá-lo e puxá-lo pelas duas mãos... e o estádio em que estamos agora, dar-lhe só uma mão, a de trás.. e puxá-lo.


Já é ele que empurra a prancha com os pés, transfere com a dinâmica do corpo a energia que lhe dou na pequenina mão dele, e olha em frente, de joelhos fletidos, de olhos muito abertos e riso largo, sonoro, quando a velocidade começa a ser alguma... aquela sensação de descoberta, de medo, de adrenalina... aquela sensação de êxtase, de felicidade pura, digna e tão, tão humana... feliz.

É isso que vejo no Slater. Está sempre com aquele riso de míudo a brincar quando sai de alguma onda. Aquela sensação de deslumbramento perante a vida, perante a surfada que acabou de dar...

É isso que importa afinal na vida... vivê-la assim, como se fosse a primeira onda em que nos pusémos de pé...


É isso que mais admiro no 11 vezes campeão de um campeonato que corre o mundo todo.


Ah... e o meu sobrinho, pelo menos na prancha... é goofie*, como eu!










* esquerdino









quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Ah Life, great Life!





Family, friends, surf...











terça-feira, 29 de novembro de 2011

Smiling at the future, smiling at the unknown...





Deixa que o teu mundo esteja aberto em grande,
E os teus medos, sejam lançados para longe.

Que a tua voz seja
mais alta que as bombas
Algures no silêncio
encontra alguém em quem confiares

Levanta a tua cabeça,
desata o nó,
Meu Amor
A esperança nunca está a anos-luz...

Deixa que os teus sentidos
expludam de luz,
como raios de neon
a cantar no escuro

Ligado ao mundo,
um milhão de vizinhos,
um mar de estrelas..

Vejo-te a sorrir para o amanhã,
Vejo-te a sorrir para o desconhecido...

A esperança, meu amor, nunca está a anos-luz...










Estranha, mas deliciosa, esta fase da vida indisciplinada, com preguiça e prazer, em que os maiores, são mesmo os mais simples... Estranha, sempre tão rigoroso no dever, no ter de fazer o que se tem de fazer, capaz de horas e horas seguidas de trabalho, de empenho concentrado.. Fez-se finalmente o que se podia, o que se tinha de fazer. Dever cumprido. Estudo concluído. Deu-se-lhe a mão até que soubesse, fez-se caminhar, e o sonho lá vai, já anda por ele... podes-te sentar e olhar, só e apenas.. desfrutar.


Estranha, mas deliciosa, esta fase da vida, em que não se sabe para onde se virar porque o futuro não se mostra, não tem pressa, em que o tempo escorre lento e doce como mel, onde o apetece e a preguiça sobram, onde o surf manda e os jantares tranquilos ou animados, com sabores distintos em especiarias que vieram de longe, a dar o paladar e a conversa sem fim com amigos, aqueles bons, os de sempre porque fora do tempo, eternos.


Estranha, mas deliciosa, esta fase onde a família, sempre eterna também, se faz presente, a ouvir sempre com tempo, e aos mais pequenos se ensina a surfar, seja nas ondas, seja na vida, seja na prancha com rodas, seja com quilhas.. Sempre com mil perguntas, sempre... ansiosos por beberem a vida com o sorriso que atravessa o rosto, sempre virado para cima, para quem os protege e para o céu, sempre a olhar ambos ao mesmo tempo...


Estranha, mas deliciosa, esta fase da vida, espécie de crise (meia idade, precoce é certo), em que tudo está em aberto, onde tudo parece novo, até quem conhecemos como à nossa mão, onde se sorri para o desconhecido, onde se sorri para o futuro... 


Para os sonhos que hão-de vir, para os projectos a par que hão-de nascer, para a vida nova que se há-de formar..
Nas ondas que se perderam, mas que agora se vão surfar...





sexta-feira, 25 de novembro de 2011

I was born to surf...




I was born to surf.
This is why I wake up at the crack of dawn every day.
This is why I endure belly rashes, reef cuts, muscles so tired they feel like noodles.
And I’ve learned that life is a lot like surfing... when you get caught in the impact zone, you need to get right back up because you never know what’s over the next wave… 
and if you have faith, anything is possible, anything at all...






and thats all folks.
very simple

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Trust it





"Don’t take just any wave that comes along.
The greatest surfers... they all have this sixth sense.
They know when the best waves are coming. They can feel it. It’s a gift.
You have that gift too.


Do you know that moment, between the sets, when its quiet?...
The waves haven't even formed yet... It's just energy surging through the water.


That's the time to be patient.
Listen to your instinct. Trust it. You will know...”




domingo, 20 de novembro de 2011

Everything less than immortality is a waste of time*



:: from the motion picture, based on the true story from the surfer Bathany Hamilton, "Soul Surfer"
* Matt Groening

Enjoy...

Passion rebuilds the world (...). It makes all things alive and significant.
Ralph W. Emerson







Inspira-Te...





... contempla a Terra, a Mãe Natureza com respeito solene.
Vê-Te nela, vê o teu lugar nela...







... agora, vai surfar.
(ou outra coisa qualquer que te faça feliz)

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

O que cabe dentro do silêncio?




LIVE YOUR SEARCH



wearing yourself





quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Dar-se

fotografia tirada de um site, encontrada googlando "wooden rings"


1. Nunca me detive muito no assunto... alguns minutos, o tempo suficiente para encontrar soluções costuma chegar e chegou. A minha parte será, além disso, só metade da solução. Mas esta era uma coisa incomum.
Há alianças, ao que vou vendo, de todas as maneiras e feitios, com todas as inscrições e mais algumas, de ouro, de prata, de ouro branco, de ouro com prata e ouro branco...
Ouvi uma história de duas pessoas, já de idade, que tinham uma aliança, mas de madeira. Diziam eles que não eram resistentes e à prova de choques como as outras alianças. Que tinham de ter cuidado com elas, tinham de ser meigos, atenciosos durante o dia inteiro, durante todo o tempo a trabalhar ou a fazer o que quer que fosse, estivessem junto do cônjuge ou não. Tinham de cuidar da aliança para ela não se estragar.
Como era com a aliança, assim tinham de ser com o outro. Tinham de o cuidar, como se de uma preciosidade se tratasse (e tratava).. e como bem sabemos, tudo o que é mais precioso, é também frágil.. há que cuidar, há que se entregar.
Há gente que dá tudo de si aos outros, como se eles fossem a última onda que se corre com tudo o que temos para dar, não importa que sacrifícios sejam necessários.






fotografia por António Chagas


2. Estava a sair do mar. Um daqueles dias de off-shore, em que as ondas entubam e para trás da crista da onda vai sempre água formando um efeito visual bonito, e uma sensação não agradável de se sentir na cara (sinal de que se perdeu a onda). Um cenário que pareceria tirado de um filme épico de surf se fosse filmado em close-up's... porque em lente de grande angular veriamos muitas ondas boas... mas curtas, desorganizadas entre si. Há muito que não estava nada de jeito... portanto, a fome era muita. Aproveitou-se.

O mar estava com força, encrespado. Quem olhasse, tinha mau aspecto... mas o surf era bom, divertido! É isso o que mais conta... que seja divertido, que brinquemos nele como garotos maravilhados com o parque infantil cheio de engenhocas novas.

Estava, tempos mais tarde, a sair do mar, portanto. Veio ao meu encontro uma senhora de idade, muito simpática, já caminhava com alguma dificuldade. Vinha agasalhada, mas por cima do agasalho, o avental. Daqueles que usa sempre quem não pára, quem está sempre pronto para trabalhar, para fazer o que for preciso... e geralmente não para eles próprios, para outros.

Perguntou-me preocupada se eu conhecia o Joaquim. Eu disse que não. Supreendida por não o conhecer, disse-me que era um que trabalhava na loja xpto.
- Ahhhh, disse eu... - sim... entrámos ao mesmo tempo. Ainda lá está! (tinha visto um rapaz que trabalha numa loja de surf a entrar ao mesmo tempo que eu)
- Mas ele tinha de ir para a escola.. Disse-me "Mãe, vou só um bocadinho e já venho".
Descansei a senhora e disse-lhe que era assim o Mar. Quando se entra nele, é difícil sair. Como certas coisas e pessoas na vida. Entusiasmam tanto, viciam tanto, que adoramos aquela sensação de não-liberdade-e-dependência-daquilo... seja para coisas boas, seja para coisas más.

Troquei mais conversa com a senhora, ouvi-a, falei também. Tempo tranquilo. Disse-lhe no fim para não se preocupar. O Mar estava com cara feia, mas mandava tudo para a areia. Mesmo que ele fique cansado.. vem ter ao areal num fechar de olhos.
Ficou tranquila.

Fui lavar a prancha e voltei em direcção ao carro para tirar o fato. Cruzei-me com um idoso, sentado no muro. Como estava a olhar para mim, disse-lhe bom dia, ele respondeu e disse-me: Ele não é filho, mas foi ela que o criou desde sempre.
Não percebi do que estava ele a falar, mas detive-me. 
Ao ver que eu estava meio perdido, explicou-me que falava da senhora. Contou-me a história dela.
São coisas que impressionam... quando menos esperamos, trocamos tempo e palavras com anjos de Deus, com heróis e heroínas onde menos esperávamos.
Há gente que dá tudo de si aos outros, como se fossem a última onda que se corre com tudo o que temos para dar, não importa que sacrifícios sejam necessários.



José António.. um sobrevivente de Santa Cruz (Díli, Timor-Leste).


3. Era uma manhã de sábado (a manhã anterior à história anterior, que foi à tarde!). Tinha sido uma semana daquelas de trabalho, trabalho, trabalho. Custou-me levantar cedo, mas  lá fui. Duty calls.

Passavam naquele dia 20 anos do massacre de Santa Cruz. Por sorte foi filmado e o mundo pôde ver as atrocidades por que Timor passava e que o Bispo local tinha denunciado numa carta que conseguiu fazer sair de lá, chegar ao Bispo de Setúbal e, este fez chegar às Nações Unidas. (E o Bispo local ainda foi admoestado pela carta pelo Núncio... o representante do Vaticano.. enfim... isso são outras histórias e diagnósticos de esquizofrenia auto-inflingida aguda).

Havia no CUFC uma celebração, depois uma festa. Pronto, duas festas... estiveram muitos Timorenses. Um deles era um dos históricos setenta estudantes que se refugiaram na embaixada em Jacarta. Tive a sorte de partilhar os bancos de uma faculdade com um destes setenta, outro.
Outro deles, ali na sala, era um dos sobreviventes do massacre.

...

(silêncio)

...

Outro super-herói. O José António era um jovem na altura. Estava ali naquele sábado sempre a sorrir, sempre, sempre, sempre.
Não faço a menor ideia do que ele passou... mas calculo que tenha sido... (está-me a dar uma branca... ou então não haverá mesmo palavra para dizer)...

Ele não parou. Hoje é professor. Está no programa nacional de restruturação do ensino em Timor-Leste. Tem ideias, tem força, sabe que caminhos deviam, devem e estão a traçar.
O casaco de fato de treino que enverga e a mochila a tira-colo não diriam isso a um ocidental cheio de preconceitos e catalogações de importâncias.

Mais um super-herói... o mundo está cheio deles e nós ouvimo-los tão pouco!
Boa viagem de regresso ao sol nascente José António. Que a tua vida continue a ser frutuosa.


Há gente que dá tudo de si aos outros, como se fossem a última onda que se corre com tudo o que temos para dar, não importa que sacrifícios sejam necessários.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

 
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