Dar-se

fotografia tirada de um site, encontrada googlando "wooden rings"


1. Nunca me detive muito no assunto... alguns minutos, o tempo suficiente para encontrar soluções costuma chegar e chegou. A minha parte será, além disso, só metade da solução. Mas esta era uma coisa incomum.
Há alianças, ao que vou vendo, de todas as maneiras e feitios, com todas as inscrições e mais algumas, de ouro, de prata, de ouro branco, de ouro com prata e ouro branco...
Ouvi uma história de duas pessoas, já de idade, que tinham uma aliança, mas de madeira. Diziam eles que não eram resistentes e à prova de choques como as outras alianças. Que tinham de ter cuidado com elas, tinham de ser meigos, atenciosos durante o dia inteiro, durante todo o tempo a trabalhar ou a fazer o que quer que fosse, estivessem junto do cônjuge ou não. Tinham de cuidar da aliança para ela não se estragar.
Como era com a aliança, assim tinham de ser com o outro. Tinham de o cuidar, como se de uma preciosidade se tratasse (e tratava).. e como bem sabemos, tudo o que é mais precioso, é também frágil.. há que cuidar, há que se entregar.
Há gente que dá tudo de si aos outros, como se eles fossem a última onda que se corre com tudo o que temos para dar, não importa que sacrifícios sejam necessários.






fotografia por António Chagas


2. Estava a sair do mar. Um daqueles dias de off-shore, em que as ondas entubam e para trás da crista da onda vai sempre água formando um efeito visual bonito, e uma sensação não agradável de se sentir na cara (sinal de que se perdeu a onda). Um cenário que pareceria tirado de um filme épico de surf se fosse filmado em close-up's... porque em lente de grande angular veriamos muitas ondas boas... mas curtas, desorganizadas entre si. Há muito que não estava nada de jeito... portanto, a fome era muita. Aproveitou-se.

O mar estava com força, encrespado. Quem olhasse, tinha mau aspecto... mas o surf era bom, divertido! É isso o que mais conta... que seja divertido, que brinquemos nele como garotos maravilhados com o parque infantil cheio de engenhocas novas.

Estava, tempos mais tarde, a sair do mar, portanto. Veio ao meu encontro uma senhora de idade, muito simpática, já caminhava com alguma dificuldade. Vinha agasalhada, mas por cima do agasalho, o avental. Daqueles que usa sempre quem não pára, quem está sempre pronto para trabalhar, para fazer o que for preciso... e geralmente não para eles próprios, para outros.

Perguntou-me preocupada se eu conhecia o Joaquim. Eu disse que não. Supreendida por não o conhecer, disse-me que era um que trabalhava na loja xpto.
- Ahhhh, disse eu... - sim... entrámos ao mesmo tempo. Ainda lá está! (tinha visto um rapaz que trabalha numa loja de surf a entrar ao mesmo tempo que eu)
- Mas ele tinha de ir para a escola.. Disse-me "Mãe, vou só um bocadinho e já venho".
Descansei a senhora e disse-lhe que era assim o Mar. Quando se entra nele, é difícil sair. Como certas coisas e pessoas na vida. Entusiasmam tanto, viciam tanto, que adoramos aquela sensação de não-liberdade-e-dependência-daquilo... seja para coisas boas, seja para coisas más.

Troquei mais conversa com a senhora, ouvi-a, falei também. Tempo tranquilo. Disse-lhe no fim para não se preocupar. O Mar estava com cara feia, mas mandava tudo para a areia. Mesmo que ele fique cansado.. vem ter ao areal num fechar de olhos.
Ficou tranquila.

Fui lavar a prancha e voltei em direcção ao carro para tirar o fato. Cruzei-me com um idoso, sentado no muro. Como estava a olhar para mim, disse-lhe bom dia, ele respondeu e disse-me: Ele não é filho, mas foi ela que o criou desde sempre.
Não percebi do que estava ele a falar, mas detive-me. 
Ao ver que eu estava meio perdido, explicou-me que falava da senhora. Contou-me a história dela.
São coisas que impressionam... quando menos esperamos, trocamos tempo e palavras com anjos de Deus, com heróis e heroínas onde menos esperávamos.
Há gente que dá tudo de si aos outros, como se fossem a última onda que se corre com tudo o que temos para dar, não importa que sacrifícios sejam necessários.



José António.. um sobrevivente de Santa Cruz (Díli, Timor-Leste).


3. Era uma manhã de sábado (a manhã anterior à história anterior, que foi à tarde!). Tinha sido uma semana daquelas de trabalho, trabalho, trabalho. Custou-me levantar cedo, mas  lá fui. Duty calls.

Passavam naquele dia 20 anos do massacre de Santa Cruz. Por sorte foi filmado e o mundo pôde ver as atrocidades por que Timor passava e que o Bispo local tinha denunciado numa carta que conseguiu fazer sair de lá, chegar ao Bispo de Setúbal e, este fez chegar às Nações Unidas. (E o Bispo local ainda foi admoestado pela carta pelo Núncio... o representante do Vaticano.. enfim... isso são outras histórias e diagnósticos de esquizofrenia auto-inflingida aguda).

Havia no CUFC uma celebração, depois uma festa. Pronto, duas festas... estiveram muitos Timorenses. Um deles era um dos históricos setenta estudantes que se refugiaram na embaixada em Jacarta. Tive a sorte de partilhar os bancos de uma faculdade com um destes setenta, outro.
Outro deles, ali na sala, era um dos sobreviventes do massacre.

...

(silêncio)

...

Outro super-herói. O José António era um jovem na altura. Estava ali naquele sábado sempre a sorrir, sempre, sempre, sempre.
Não faço a menor ideia do que ele passou... mas calculo que tenha sido... (está-me a dar uma branca... ou então não haverá mesmo palavra para dizer)...

Ele não parou. Hoje é professor. Está no programa nacional de restruturação do ensino em Timor-Leste. Tem ideias, tem força, sabe que caminhos deviam, devem e estão a traçar.
O casaco de fato de treino que enverga e a mochila a tira-colo não diriam isso a um ocidental cheio de preconceitos e catalogações de importâncias.

Mais um super-herói... o mundo está cheio deles e nós ouvimo-los tão pouco!
Boa viagem de regresso ao sol nascente José António. Que a tua vida continue a ser frutuosa.


Há gente que dá tudo de si aos outros, como se fossem a última onda que se corre com tudo o que temos para dar, não importa que sacrifícios sejam necessários.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

 
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